sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Amor da minha vida inteirinha

    Os dias, quando te tenho por perto, são sempre leves e felizes; mas a cama parece fria e enorme nas noites em que não te tenho comigo. A casa fica vazia, mesmo com pessoas, porque a rotina contigo é simples e natural, como se a vivêssemos desde sempre e eu mal posso esperar pelo dia em que a vamos transformar na nossa rotina diária, sete dias por semana e doze meses por ano. Trazes-me uma paz que antes não sabia ser possível, muito menos que precisava, e uma estabilidade que nunca antes consegui ter. Consegues equilibrar-me e fazer-me manter os pés bem assentes na terra, mesmo que sonhemos muito. Não existe alguém que me faça sentir mais segura do que tu, nem que cuide de mim como tu; não há sorriso mais cúmplice do meu do que o teu e és, sem dúvida, a melhor companhia para as minhas madrugadas não dormidas. Contigo a vida é fácil, mesmo quando é difícil: os dias maus nem parecem assim tão maus, os problemas têm sempre solução, o meu mau humor matinal deixou de existir e passou a haver sempre um lado positivo para tudo. É por isso que a eternidade me parece pouco para tudo aquilo que temos para viver e que sei que serás a minha companheira de vida.
    Tenho mil planos para nós, mas sei que se a vida nos fintar e não correr como planeado (nunca corre, não é?), será igualmente incrível, desde que seja passada ao teu lado. Desse plano eu não abdico: o de dividir a cama e a vida contigo. Sonho acordada contigo e connosco, com um casamento, com uma família, com uma casa, com as viagens… com tudo aquilo que sabemos que queremos viver juntas. É que se a vida não correr como está planeado, damos um jeito de a fazer encarrilar de novo e alcançar as nossas metas juntas. Porque a verdade é essa: somos duas pessoas com sonhos e metas individuais, mas somos, também, uma junção de ambas e com metas em conjuntos. Somos um casal, somos uma equipa. A melhor que já vi, deixa-me que te diga. Completas-me. Não me anulas, não me tentas mudar, não esperas que eu encaixe nas tuas expectativas. Aceitas-me como sou e completas-me de uma maneira que tem tanto de inacreditável como de encantador. Inacreditável porque não sabia que era possível que esta ligação acontecesse com alguém, encantador porque a nossa ligação é linda e a nossa felicidade está à vista de todos aqueles que a queiram ver.
    És a minha história de amor à filme que nunca achei que fosse viver. És aquele amor que eu acreditava que só existia nos livros de romance que lia e que não teria a sorte de experienciar. Mas tive, porque, como o Projota diz, "a sorte um dia vem". E a minha sorte, a minha sorte grande, veio em forma de gente, na pessoa com a alma mais linda e o riso mais contagiante que alguma vez conheci. A minha sorte grande veio em forma de amor, o amor mais puro e genuíno que alguma vez senti. Amar-te é simples, porque és a alma gémea da minha e, quer queiramos quer não, estávamos destinadas uma à outra. Fosse agora ou depois, os nossos caminhos iam cruzar-se e, em alguma esquina desta vida, íamos esbarrar uma na outra e perceber que somos feitas para estar juntas. Tenho em ti mais do que alguma vez sonhei: a minha namorada e a minha melhor amiga. Serás sempre a minha maior confidente e a pessoa em quem confio de olhos fechados. E a vida, essa sacana matreira, que não se lembre de te tirar de mim, porque eu não me fico e dou luta. Por ti tudo, hoje e sempre, amor da minha vida inteirinha. 

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

12 anos a viver com a tua ausência

    Avô: 

    Todos os anos te escrevo e nunca sei como começar, há tanta coisa que te queria contar que nem sempre consigo ser coerente. Por isso é que as palavras nem sempre saem do papel, porém tu nunca ficas no esquecimento. Doze anos depois e continuo a achar que foste cedo demais, avô. Licenciei-me há dois anos e tu não estavas na bancada do estádio no dia da minha benção; também já não tinhas estado no primeiro dia que trajei ou no dia que festejei a entrada na licenciatura; não te pude ligar no dia que soube que tinha conseguido entrar no mestrado, ou no dia em que escolhi o tema da tese e consegui o que queria, ou no dia em que consegui vaga de estágio na minha primeira opção. Há doze anos que não te posso ligar e sei que, se ainda cá estivesses, não passarias um único dia sem falares comigo. Se ainda cá estivesses, saberias que comecei o estágio a semana passada e que estou quase a acabar o meu último mandato no núcleo de estudantes. Há tanta coisa que deverias saber, tanta coisa que eu gostava de te poder contar...
    Sabes, avô? Lidar com a tua ausência, nestes últimos doze anos, não tem sido fácil. A verdade é que o tempo não atenuou as saudades e a dor de não te ter por perto continua a ser a mesma. Porém, hoje posso dizer que sou feliz. Sou mesmo, avô, sabes porquê? Porque tenho uma miúda incrível ao meu lado e que faz de tudo para me fazer sorrir. Ias gostar dela. Ias adorar juntar-te a ela quando goza comigo, mas ias adorar, sobretudo, saber que podias dormir descansado todas as noites, porque estou segura com ela. É ela que me acalma quando a dor de não te ter me consome e as lágrimas me escorrem duas a duas pela cara. Porque a verdade é essa: doze anos depois, no dia 14 de outubro, eu volto a ser aquela menina de 13 anos a quem a mãe contou que perdeu o avô... para sempre. 
    Nos dias em que duvido de mim, lembro-me sempre de ti: sei que me dirias, independentemente de tudo, que estavas orgulhoso de mim. Serias, como sempre foste, o meu maior fã e o meu mais fiel confidente. Esta pandemia ia estar a consumir-te os nervos de preocupação comigo, sozinha pelo Algarve, e sei que ias passar os dias a ligar-me a perguntar pela máscara, pelo gel desinfetante e pela temperatura corporal ou qualquer outro sintoma. Eu ia rir de ti e tu ias reclamar comigo, mas no dia a seguir voltarias a ligar, sem falhar. Mas ias estar orgulhoso. Eu sei que ias e isso chega-me (mais ou menos). Acreditar que te orgulharias de mim ajuda a seguir em frente e continuar a conquistar metas, com a certeza de que toda e qualquer vitória minha, é tua também. Onde quer que eu vá, levo-te comigo; o que quer que eu seja, serei sempre um pouco de ti. Doze anos depois, continuo a viver com a tua ausência e a achar que foste cedo demais. E foste, mas eu levo-te sempre comigo.

terça-feira, 31 de março de 2020

Quarentena: tudo aquilo que demos por garantido

   Dei a minha rotina diária por garantida, como todos demos. As horas a que me levanto e tomo o pequeno-almoço, o sair de cada atrasada para as aulas, a mensagem para a amiga a dizer que já cheguei, as aulas que demoram a passar e as que passam a voar, os intervalos com as pessoas de quem mais gosto e até o ter de me cruzar com pessoas que preferia nem ver. Dei, como todos demos, por garantida a possibilidade de mandar uma mensagem à minha melhor amiga a dizer "Mc daqui a 20min?" ou a possibilidade de estar com ela todos os dias, de a poder abraçar e de podermos ir "só ali beber uma mini". Dei por garantidos, tal como todos demos, os jantares de curso ou as saídas à noite, as tardes passadas na sala de estudo ou na biblioteca a procrastinar, e aquelas em que realmente dávamos tudo para o trabalho ficar pronto para apresentar ou o resumo ficar acabado antes de ir para casa, as idas à praia para sentir a brisa do mar ou as idas à baixa para ver o sol a por-se. Dei por garantida a minha liberdade, todos demos, e hoje sinto-me presa.
    Hoje é o meu 20º dia de quarentena (ou isolamento social, como preferirem) e eu sinto que o tempo demora a passar. As oscilações de humor começaram há uns dias e tudo se prende com o facto de, no mesmo espaço, ter de dormir, socializar e estudar/trabalhar. Tornei-me pouco produtiva e tenho dificuldade em concentrar-me, mas aquilo que me consome realmente é o facto de me sentir privada, como todos, da minha liberdade. Da minha liberdade de ir só ali, da minha liberdade de sair de casa para as aulas, da minha liberdade de estar com os meus e de poder combinar coisas todos os dias, da minha liberdade, acima de tudo, de estar com a minha melhor amiga, que, de todas as pessoas (e desculpem-me ferir suscetibilidades), é a pessoa que mais falta me faz no meu dia a dia (não é à toa que é a minha melhor amiga, não é?). É ela que me mantém em equilíbrio, que me acalma quando me salta a tampa ou que me puxa para cima quando me sinto a afundar. E eu preciso dela por perto.
    Nestes 20 dias já: lavei a roupa toda do cesto, limpei a casa a fundo, lavei as janelas da casa, passei a ferro a pilha de roupa que chegava ao teto, assisti a aulas online, fiz uma frequência à distância, adiantei trabalhos, vesti-me e maquilhei-me para ficar em casa, reli as minhas fitas de finalistas, pus as minhas séries em dia, vi filmes, tentei pôr a leitura em dia e, sobretudo, fintei as saudades. Fintei as saudades com chamadas, com videoconferências, com aplicações inovadoras para manter as pessoas em contacto e com fotos com filtros engraçados. Fintei as saudades, mas são essas mesmas saudades que me consomem diariamente. Numa altura em que a motivação começa a escassear e começo a sentir-me mais murchinha, as saudades levam a melhor e deixam-me de lágrimas nos olhos. Porque dei a minha rotina diária por garantida, como todos demos, e achei que a minha liberdade nunca me seria retirada assim. Dei tudo por garantido, como todos temos, e hoje sou toda feita de saudades.

sábado, 11 de janeiro de 2020

2020

    Com a passagem de ano, geralmente, vêm as resoluções para o novo ano. Promessas de idas ao ginásio, de acordar cedo e ser-se produtivo, de poupar dinheiro, de não comer fast food e de tantas outras coisas que, ao fim de quinze dias, ficam esquecidas e voltam a ser lembradas no final do ano, para serem prometidas novamente no início do ano seguinte. Por isso mesmo, este ano decidi não fazer grandes promessas e/ou pedidos, porque com o passar dos anos tenho percebido que, por muito que pleneemos o novo ano, as coisas nem sempre correm conforme o esperado e aquele que parecia ser o grande ano das nossas vidas, apesar de não ter sido o pior, foi apenas mediano. Foi o que me aconteceu com 2019.
    2019 tinha tudo para ser o meu ano. Estava onde queria estar e com quem queria estar. Vivia na cidade onde me sinto bem e estudava na universidade que queria. E tudo isto se manteve até agora, o que, só por si, já é bom. Mas ao longo do ano fui perdendo pessoas que achava que seriam para a vida, da maneira mais dura possível; fui-me desiludindo com as atitudes e decisões que tomavam e fui entendendo, aos poucos, que talvez aquelas não fossem o tipo de pessoas que eu gostaria de ter ao meu lado. Aprendi que a culpa não é dessas pessoas e sim minha, porque fui eu quem colocou expetativas demasiado elevadas naaquelas pessoas e naquilo que elas estariam dispostas a fazer por mim, que, claramente, não foi equivalente ao que eu estaria disposta a fazer por elas. Foi duro, senti que me tinham tirado o tapete debaixo dos pés e achei que era eu quem era demasiado exigente no que toca às pessoas que tenho por perto. No entanto, da mesma forma que me tirou pessoas que achei que eram cruciais na minha vida, 2019 trouxe-me seres humanos incríveis que me mostraram que, talvez, não seja eu que sou exigente, mas sim que não tinha tido a sorte, ainda, de conhecer as pessoas certas para ter ao meu lado. No fim de contas, faço um balanço positivo do ano por ter mudado para uma casa melhor, por ter conhecido pessoas novas incríveis, por ter reforçado os laços com as minhas pessoas e por ter entrado no mestrado que queria. Os momentos negativos foram realmente muito negativos e pesam, talvez seja por isso que o ano foi uma montanha russa de emoções e que eu o considero mediano, mas não é por isso que deixo de estar grata a tudo aquilo que 2019 me trouxe de bom. 
    Começo 2020 a estudar para os exames e a fazer uma retrospetiva daquilo que foi o ano anterior. Tenho algumas metas bem definidas sobre aquilo que quero que aconteça nos próximos 12 meses, outras são um pouco mais abstratas (e talvez já sejam daquelas que vẽm de anos anteriores), mas não tenciono ficar sentada à espera que as coisas aconteçam. Sei bem o que quero e vou fazer tudo o que estiver a meu alcance para conseguir. Quero acabar o ano com o coração tão ou mais cheio como começo e poder dizer que foi um ano do c#$%&@o! Gostava de prometer que é este ano que corto de vez com a lactose, que tanto mal me faz, mas sei que é um processo que talvez demore mais do que 12 meses; no entanto, os 3L de água diários têm de ser uma realidade (as minhas pedras nos rins assim o ditam) e as pessoas que são tóxicas para mim têm de saltar fora, de vez. O resto vem com o tempo, o esforço e a dedicação. Que 2020 seja um grande ano, se não puder ser o melhor ano.

sábado, 28 de dezembro de 2019

Alma Gémea da minha

    Um ano. Passou um ano e eu não sei expressar a gratidão que sinto por, ao fim de 24 anos, os nossos caminhos se terem cruzado. Eu mal dei pelo tempo passar e dificilmente diria que se passaram estes 365 dias. Foi natural, foi fácil, abrir-te as portas da minha casa, e do meu coração, e deixar-te entrar, aos poucos, à tua maneira, sem pressões nem exageros, quase de forma subtil e sem darmos por isso. A espera valeu a pena, ainda que eu não soubesse que te esperava, mas a vida sabia que te tinha que trazer até mim, na altura em que ambas precisássemos de nos encontrar. Só o destino explica o teu aparecimento, estavas-me destinada, para me demonstrar que é possível conhecer alguém que seja igual e diferente de mim ao mesmo tempo, de tal forma que me completas. 
    Foste o presente mais bonito que a vida me podia ter dado para fechar a década com chave de ouro e és, sem sombra de dúvida, a pessoa que quero levar para a vida, até sermos velhinhas e fazermos corridas de cadeiras de rodas elétricas nos corredores do lar. És a calma, quando eu sou tempestade. És o colo dos dias difíceis e a companheira das noites loucas. És a amiga de todas as horas e o ombro onde posso soluçar a qualquer momento. És a pessoa em quem confio de olhos fechados e com quem sei sempre que posso contar. És a única pessoa que conheço que goste tanto de alperces secos e cajus quanto eu. És a pessoa que me ouve e nunca me julga, que respeita sempre as minhas decisões, mas que sabe quando deve chamar-me à razão e dar-me sermões. Palmadinhas nas costas não é muito a tua cena, mas és o abraço-casa sempre pronto para me receber. És a minha pessoa, a alma gémea da minha alma. 
    Todo o amor que te tenho não pode ser explicado e é isso que o torna tão incompreendido pelas pessoas à nossa volta. Talvez por inveja, até, por verem que aquilo que construímos não é facilmente encontrado por aí e eu ainda nem acredito na sorte que tive em encontrar-te. Um obrigada para ti nunca será suficiente para tudo aquilo que fazes por mim e por tudo aquilo que vivemos, mas fica a promessa de te demonstrar a minha gratidão todos os dias e de nunca te falhar nem te deixar desamparada, porque aconteça o que acontecer, estou sempre de braços abertos para ti. Um ano. Passou um ano e eu não sei expressar a gratidão que sinto por, ao fim de 24 anos, os nossos caminhos se terem cruzado. Eu mal dei pelo tempo passar e dificilmente diria que se passaram estes 365 dias, mas não podia estar mais feliz por, há um ano atrás, te ter dados dicas sobre as cadeiras que ias ter e ter insistido naquele café que insistias em deixar no esquecimento. Obrigada por me teres querido manter a par das notas e por te teres preocupado nos momentos certos, mesmo que não soubesses o quão importante essa preocupação estava a ser. Amo-te para a vida. To Plutão and back, sempre mais duas viagens do que ontem.

quarta-feira, 6 de março de 2019

E quando amar só não chega?

    Ao longo dos meses fomos construindo a nossa história. A nossa história atribulada, cheia de altos e baixos. Não foi uma adaptação fácil e foi preciso engolir muito o orgulho em certos momentos, perceber que eras novata nisto das relações e que, para todos os efeitos, era a primeira vez que fazíamos isto. Aceitei coisas que não aceitaria com mais ninguém (e que hoje sei que não aceitarei de novo), porque me apaixonei por ti muito mais depressa do que contava e preferia ter-te daquela forma, do que não te ter de todo. Ainda que isso me fosse custando a sanidade mental. Então, fui aceitando as tuas condições, os teus receios, o teu pé atrás, a tua incapacidade de te entregares e de estar numa relação séria, só tu e eu. Aos poucos, foste cedendo e dando-me razão de que, na verdade, não aguentarias ver-me com mais ninguém, como eu tive de aguentar durante meses. 
    O nosso amor cresceu, sempre secreto, sempre só nosso e foi tão bom assim. Pudemos ser nós, sem ninguém a meter-se pelo meio, sem segundas opiniões. Mas foi difícil passar sozinha pelos momentos em que nem sequer me davas oportunidade para me explicar. "O que ninguém sabe, ninguém estraga" fui-me convencendo disso durante meses. E ninguém estragou. Mesmo quando começaram a saber. Fomos nós que nos estragámos, sempre com limitações, com discussões e com contrariedades. Aos poucos, fomos deixando de dizer e de fazer, só para não levantar, não criar mais discussões, porque queríamos estar bem. E fomos deixando de ser nós.
    E agora? O que faço ao amor imenso que te tenho e à mágoa gigante que carrego no peito? Não é falta de amor e ambas sabemos. O que me falta é a coragem para continuar a levantar a cabeça após cada queda, a força para continuar a lutar para que as coisas dêem certo. Ninguém devia ter de mudar assim tanto por alguém, ninguém devia aguentar coisas que lhe trazem mágoa por outra pessoa, uma relação não devia ser baseada em "vamos fazer o esforço para". O que se faz quando o amor, por si só, não chega? O que se pode fazer quando os dias maus são mais do que os dias bons e não somos felizes todos os dias ao lado daquela pessoa? O que faço para que o filtro de mágoa desapareça e me volte a sentir apaixonada por ti todos os dias? Para voltar a contar os segundos para te ver? Para sentir borboletas no estômago quando te vejo chegar? 

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

"Vais ser feliz, mas antes vais aprender a ser forte"

   De repente, dás por ti no último semestre da licenciatura. Daqui a meia dúzia de meses tens o curso terminado e vais sentir-te realizada, vais sentir que todo o esforço valeu a pena e que todas as horas passadas a estudar e a fazer trabalhos foram compensadas. De repente, percebes que estás a um passo de estar licenciada. Como assim? Já? Passou a voar! Ainda ontem foste besta e estavas a ser praxada, ou pelo menos, lembras-te como se fosse ontem. Ainda ontem tiveste as primeiras aulas e foste, completamente em pânico para as primeiras frequências e apresentações de trabalhos. Ainda ontem eras manceba, o ano em que é mais aborrecido ir a jantares de curso, porque as atenções são centradas no outros anos, mas o ano em que começas a ter cadeiras com as quais te identificas mais e onde os trabalhos começam a exigir mais de ti. E ainda ontem praxaste, ganhaste afilhados e os acolheste debaixo da capa e, hoje, já lhes estás a dar a tua fita de finalista e a pedir para te entregarem a tempo de a colocares na capa para a benção. Hoje, vês os teus padrinhos ficarem nostálgicos, pela pintainha deles já ser finalista e sentirem-se velhos e pensas que, se o tempo voou até agora, vai continuar a voar e, quando deres por ti, vais ser tu nesse lugar, a ver os teus rebentos finalistas e sentires-te velha. Na verdade, já te sentes, não é? Em maio eles já traçam a capa, TU já lhes traças a capa!
    Então, de repente, és apoderada de uma nostalgia gigante, porque está tudo a acabar. Mas também és apoderada de um pânico enorme, por veres a quantidade de trabalho que já tens para o semestre, que te vai consumir imenso tempo, mas tu queres continuar a ser uma madrinha e uma afilhada presente, queres ter tempo para ir a festas e jantares, para tomar café e dar colo. E não sabes se vais ter tempo para tudo isso e para manter as tuas horas de sono em dia. Provavelmente, não. Aliás, com toda a certeza que não, mas ainda assim vais tentar, porque queres ser e estar. E, depois destas preocupações todas, vem o medo de não vires a ter nota para entrar no mestrado que queres, do trabalho que a tese implica e de não vires a ser uma boa profissional, medo atenuado pelo consolo dos padrinhos e o carinho dos afilhados, bem como do apoio da família, mas tens sempre medo, porque exiges muito de ti e queres ser a melhor possível em tudo o que fazes. De repente, dás por ti no último semestre da licenciatura. Daqui a meia dúzia de meses tens o curso acabado e sabes que vais sentir-te realizada, mas até lá estás perdida, assustada e atolada em trabalho, mas, no fim de contas, feliz.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Fortaleza

    Ela tenta ser forte o tempo todo, ela tenta que eu não note que lhe custa, ela tenta que todos acreditem que está tudo bem. Ela não é de ferro e eu sei que está tudo menos bem. Tem carregado o peso do mundo, cinco ou seis mundos na verdade, nos ombros e nunca reclamou. A vida tem sido madrasta com ela, mas ela continua a lutar, porque acredita que o amanhã pode ser melhor e que os dias ainda lhe vão sorrir, tanto ou mais como ela lhes sorri a eles. Ela é forte e é o meu forte, tem uma força capaz de mover montanhas só para que nunca nos falte nada. Nunca dá parte fraca, porém eu sei que também há noites em que chora antes de ir dormir.
    Eu sei que os dias não têm sido fáceis e que eu também não tenho dado um bom contributo para que o sejam. No entanto, gostava de poder aliviar-lhe parte do peso que carrega. É por isso que não lhe conto dos meus problemas. Nem quero que sonhe que os tenho, já lhe basta tudo aquilo com que lida todos os dias. Já lhe basta ter de curar as dores dos outros, guardando todas as dela no bolso, como se fossem menos importantes. E não são. É por isso que fico eu à espera da chamada do hospital, é por isso que faço eu o papel dela, é por isso que falo eu com os médicos e que espero ser eu a levar com o primeiro embate. Porque ela merece um descanso, merece que um momento de paz, merece que alguém faça por ela o que sempre fez por todos.
   Chegou a altura de ser adulta e de lidar com as adversidades da vida como ela sempre me ensinou a fazer. Chegou a hora em que tenho de deixar de olhar para ela como o modelo para o qual olho e seguir, efetivamente, o exemplo que me dá todos os dias. Chegou o momento de entender que nem sempre posso regressar ao colo dela, porque há dias em que é ela que precisa de colo e, nesses dias, tenho de ser eu a dar-lho. Ela não pode ser forte o tempo todo e nas vezes em que ela não conseguir, eu vou ser forte por ela.

domingo, 22 de abril de 2018

É amor que chama?


    Ao longo da vida conheci vários tipos de amor e todos eles me completaram um pouquinho mais. O primeiro amor que conheci, foi o amor dos meus pais. Não há amor mais seguro que esse. Eles são o meu porto seguro, o colo para o qual posso voltar a sempre que tudo correr mal, os braços que me farão sentir protegida de tudo, mesmo com um mundo a desabar sobre nós. A este amor assemelha-se o amor de irmã, que conheci há catorze anos, quando nasceu aquele serzinho maravilhoso que dorme no quarto ao lado do meu. Arriscaria a dizer que é o amor mais cúmplice de todos, aquele que me vai acompanhar até ao fim dos meus dias em aventuras e peripécias, com quem vou partilhar bons e maus momentos, com quem vou trocar risos e gritos para sempre (um dia, eventualmente, mais dos primeiros do que dos segundos).
    O amor dos amigos também foi sempre um amor muito relevante ao longo destes curtos vinte e dois anos de vida. Sempre foi, sempre será. É o amor que mais felicidade nos traz. O amor que tenho pelos meus amigos faz-me sentir completa e realizada, o amor que eles me dão preenche-me e dá-me asas para voar, para arriscar, para sair da minha zona de conforto, sabendo que por mais voltas que a vida dê, haverá sempre uma mão estendida para me ajudar a levantar, um ombro onde chorar, um colo onde descansar e um ouvido para desabafar. Este é o tipo de amor que me faz acreditar no para sempre, que me faz pensar que afinal há mesmo pessoas que vêm para ficar e que nunca ficarei sozinha, porque mesmo velhinha terei alguém com quem rir à gargalhada, a pensar em todas as maluqueiras que já vivemos juntos.
    O amor do nosso animal de estimação também é uma forma de amor. É o amor mais fiel que teremos na vida, porque não importa se tratamos bem ou mal o nosso bichinho, se lhe damos a sua comida preferida ou se nos esquecemos de lhe deixar água, se passamos o dia com ele no sofá ou se estamos fora de casa todo o dia, ele vai amar-nos sempre, com a mesma intensidade, todos os dias. E sem nunca pedir nada em troca.
    Durante a adolescência conheci aquele tipo de amor que toda a gente fala. Nem sempre foi correspondido e, umas vezes, deu-me borboletas na barriga e, outras, dores no coração. É o tipo de amor que nos faz sentir nas nuvens quando tudo corre bem, o tipo de amor que nos faz deitar todos os sonhos por terra quando tudo corre mal. Aprender a relativizar as coisas é um processo que leva tempo e, aos vinte e dois anos, ainda não sei fazer isso com muito sucesso, mas tento. Tento que as expectativas não sejam muito altas, tento que a cabeça ande na lua, mas que os pés estejam sempre bem assentes na terra e tento, acima de tudo, que o amor que tenho pela outra pessoa não me tire o amor que tenho por mim.
    E isso lembra-me do melhor amor que já experienciei: o amor próprio! Ninguém nos pode amar mais do que nós mesmos. Gostarmos daquilo que somos, de como nos sentimos, do reflexo que vemos no espelho é essencial para podermos amar todos aqueles que temos à nossa volta, para podermos experienciar, de forma equilibrada todas as formas de amor que antes falei. Não é nada fácil, devo admitir. É um processo continuo, que muitas vezes leva demasiado tempo até dar resultado e que é consequência de uma constante tentativa e erro, mas é imensamente gratificante quando é conseguido. A nossa essência fica renovada por completo, a nossa vontade de viver e de comer o mundo é gigante e acordamos felizes, todos os dias, só pelo facto de estarmos aqui e podermos continuar a viver os nossos dias. E devemos vivê-los como queremos, porque a vida já provou inúmeras vezes que o tempo que nos dá é curto demais para não fazermos aquilo que desejamos.

sexta-feira, 30 de março de 2018

Não digo a ninguém, mas tenho medo.

    Hoje, sete anos depois, ainda não sei dizer se superei ou se continua a afetar-me. Numa altura em que passam sete anos da fase mais assustadora da minha vida e, provavelmente, a pior e a que mais me mudou, ponho em perspetiva tudo aquilo que vivi e pergunto-me onde arranjei coragem para seguir com a minha vida em frente. Não tenho problemas em admitir que aconteceu e em contar a minha história, porque não fiz nada de errado, nem pedi para acontecer. Essas coisas não se escolhem.
    Foi uma fase que me mudou e que deixou sequelas. Não voltei a olhar para as pessoas da mesma maneira, nunca mais confiei cegamente em alguém, fiquei sempre com um pé atrás relativamente a qualquer um que decidisse aproximar-se. A minha auto-estima não voltou a ser a mesma, perdi totalmente a confiança em mim e em tudo aquilo que faço, acho sempre que não sou boa o suficiente e que os meus esforços nunca chegam. E não ajuda o facto de as pessoas não terem sido boas comigo ao longo dos anos, não ajuda terem-me virado as costas e terem-me deixado, sobretudo quando mais precisei. Mas tudo isso me fez crescer, tudo isso fez de mim a pessoa que sou hoje.
    Nessa altura tive de crescer, muito e muito rápido, cresci aquilo que não cresci em mais fase nenhuma. Tive medo, tive medo como nunca antes tinha tido. Perdi a motivação e a alegria, perdi o apetite e dez quilos. Perdi-me a mim mesma. Deixei de me reconhecer quando me via ao espelho, deixei de sair à rua e deixei de falar com os meus amigos. E tive medo de novo, tanto medo. Ainda hoje tenho. Tenho medo de me perder novamente, de perder as minhas pessoas e de perder a coragem, mesmo continuando sem saber de onde a tiro todos os dias. Tenho medo de me cruzar com aquele tipo de pessoas de novo, de confiar em alguém que use tudo o que sabe para me atacar e me deitar abaixo, tenho medo de confiar, tenho medo de me desiludir. Tenho medo de não ter a força que me dizem que tenho, de não ser capaz de alcançar os meus objetivos, de não saber controlar a minha ansiedade. E há dias, como hoje, em que o medo toma conta de mim, embora eu tente fintá-lo. Mas não dou parte fraca. Não digo a ninguém. Guardo para mim e juro a mim mesma que, um dia, me esqueço de tudo isto, que um dia vou acreditar em mim mesma, que me me vou sentir capaz de comer o mundo. Um dia, mas hoje não.