Senti-me insignificante, inútil, impotente. Eu nada podia fazer para que toda aquela angústia que ele sentia desaparecesse, para que aquela tristeza que o invadia fosse embora, para que a dor deixasse de lhe dilacerar a alma. Eu estava ali, é verdade, ao lado dele, sempre com a minha mão a segurar a dele, mas comparada com o tamanho do sofrimento dele eu era apenas um pedaço de nada. Por mais apertado que o meu abraço fosse, não era suficiente para o envolver e o proteger daquele tormento. Nada do que eu pudesse dizer ou fazer lhe iria trazer o pai de volta. Era o final absoluto e irreversível e eu, que um dia lhe prometi fazer tudo o que estivesse ao meu alcance para o ver sempre com um sorriso na cara, podia apenas limitar-me a suportar o peso do corpo dele quando as suas pernas já não fossem capazes de o fazer.
Foi um dia horrível. Apesar do sol e do calor, que fizeram questão de marcar presença, foi um dia feio e foi neste dia feio que descobri o poder e a força da amizade. A minha pequenez transformou-se e, aos olhos dele, fui um gigante com um abraço reconfortante, com efeitos curativos. Refugiou-se nos meus braços e soluçou no meu ombro, as lágrimas rolavam-me já duas a duas pela cara perante a impotência que sentia, mas apertei-o mais contra mim e prometi-lhe em silêncio que tudo ia ficar bem. Neste dia horrível aprendi que o sofrimento do meu melhor amigo, aquele amigo que é já como um irmão, que faz parte de mim, que é já uma extensão do meu corpo, dói mais do que qualquer sofrimento directamente meu. Neste dia horrível aprendi que não importa o quão pequena eu sou no Mundo, o meu verdadeiro tamanho é aquele que tenho no mundo dele.