Avô:
Todos os anos te escrevo e nunca sei como começar, há tanta coisa que te queria contar que nem sempre consigo ser coerente. Por isso é que as palavras nem sempre saem do papel, porém tu nunca ficas no esquecimento. Doze anos depois e continuo a achar que foste cedo demais, avô. Licenciei-me há dois anos e tu não estavas na bancada do estádio no dia da minha benção; também já não tinhas estado no primeiro dia que trajei ou no dia que festejei a entrada na licenciatura; não te pude ligar no dia que soube que tinha conseguido entrar no mestrado, ou no dia em que escolhi o tema da tese e consegui o que queria, ou no dia em que consegui vaga de estágio na minha primeira opção. Há doze anos que não te posso ligar e sei que, se ainda cá estivesses, não passarias um único dia sem falares comigo. Se ainda cá estivesses, saberias que comecei o estágio a semana passada e que estou quase a acabar o meu último mandato no núcleo de estudantes. Há tanta coisa que deverias saber, tanta coisa que eu gostava de te poder contar...
Sabes, avô? Lidar com a tua ausência, nestes últimos doze anos, não tem sido fácil. A verdade é que o tempo não atenuou as saudades e a dor de não te ter por perto continua a ser a mesma. Porém, hoje posso dizer que sou feliz. Sou mesmo, avô, sabes porquê? Porque tenho uma miúda incrível ao meu lado e que faz de tudo para me fazer sorrir. Ias gostar dela. Ias adorar juntar-te a ela quando goza comigo, mas ias adorar, sobretudo, saber que podias dormir descansado todas as noites, porque estou segura com ela. É ela que me acalma quando a dor de não te ter me consome e as lágrimas me escorrem duas a duas pela cara. Porque a verdade é essa: doze anos depois, no dia 14 de outubro, eu volto a ser aquela menina de 13 anos a quem a mãe contou que perdeu o avô... para sempre.
Nos dias em que duvido de mim, lembro-me sempre de ti: sei que me dirias, independentemente de tudo, que estavas orgulhoso de mim. Serias, como sempre foste, o meu maior fã e o meu mais fiel confidente. Esta pandemia ia estar a consumir-te os nervos de preocupação comigo, sozinha pelo Algarve, e sei que ias passar os dias a ligar-me a perguntar pela máscara, pelo gel desinfetante e pela temperatura corporal ou qualquer outro sintoma. Eu ia rir de ti e tu ias reclamar comigo, mas no dia a seguir voltarias a ligar, sem falhar. Mas ias estar orgulhoso. Eu sei que ias e isso chega-me (mais ou menos). Acreditar que te orgulharias de mim ajuda a seguir em frente e continuar a conquistar metas, com a certeza de que toda e qualquer vitória minha, é tua também. Onde quer que eu vá, levo-te comigo; o que quer que eu seja, serei sempre um pouco de ti. Doze anos depois, continuo a viver com a tua ausência e a achar que foste cedo demais. E foste, mas eu levo-te sempre comigo.
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