terça-feira, 14 de outubro de 2014

Carta para o meu avô.

Ouvi a minha primeira mentira a sério quando tinha treze anos. Alguém me disse que "o tempo cura tudo" e não sei se a pior parte é ser mentira, se é eu ter acreditado no que me diziam. Tu nunca me mentias, e sei que nunca me terias mentido de uma forma tão feia e tão descarada. O tempo não curou absolutamente nada, sabias? O tempo não trouxe a tua voz de volta, não trouxe os nossos passeios de volta, não trouxe o teu abraço de volta, não trouxe as tuas chamadas rotineiras de volta, não trouxe o teu pargo no forno de volta, não trouxe as tuas preocupações nem as nossas brincadeiras de volta. O tempo não te trouxe de volta e eu pergunto-me: porque é que ele te levou de mim tão cedo, ? Porquê? Porque é que ele não te deu mais de si mesmo? Porque é que não te deixou ver-me tirar a carta para te poder dar boleia quando os médicos te dissessem que estavas demasiado velhinho para conduzir? Porque é que não te deixou ver-me acabar o secundário e entrar na faculdade? Porque é que não te deixou ver-me casar e ter filhos? Porque é que não te deixou ver-me ser uma advogada de sucesso e salvar imensas mulheres das mãos dos maridos violentos? Explica-me, diz-me porque é que o tempo não te deixou ver-me ser uma mulher feliz, e ver a mãe ser a lutadora que sempre foi (ela também sente imenso a tua falta, mas faz-se de forte por nós), e ver a mana crescer (está uma autêntica mulherzinha, sabias? Muito respondona, teimosa e dona do seu nariz. Uma fedelha com a mania que é gente!). Não é justo estares a perder tudo isso, pois não?
Sabes o que me tem doído mais durante estes seis anos que se passaram? O adeus que não te disse. Não me deixaram ver-te quando estavas no hospital, mas eu queria ter estado lá, nem que fosse só para te dar um beijinho nessa careca gira, à qual sempre achei imensa piada, e ficar a segurar a tua mão. Nem que fosse só para ficar aos pés da cama a ver-te respirar, eu queria ter estado lá. Queria ter a certeza que sabias o quanto te amava, antes de ires embora. E queria ter estado lá também quando se despediram de ti definitivamente, mas não para me despedir. Queria apenas dizer-te "até já!", lembrar-te que um dia nos vamos encontrar outra vez e eu vou poder voltar a abraçar-te, e vamos poder pôr a conversa em dia, e eu vou poder voltar a fazer-te festinhas na cabeça porque acho a tua careca demasiado engraçada, quase tão engraçada como a cara de chateado que tentas mostrar quando o faço. Um dia vou voltar para perto de ti e vou voltar a ser aquela menina pequenina que chorava ao telefone quando o avô lhe pedia que não contasse um segredo à mãe, segredo esse que de secreto nada tinha. Há coisas que não podem ser perdoadas e eu prometo-te que me vou vingar do tempo por te ter levado tão cedo. E escusas de estar já a fazer essa cara de espanto e desconfiança em simultâneo e de me vir com esses discursos que os avós gostam de fazer, a dizer: "a vingança não nos leva a lado nenhum" porque isso comigo já não pega! Eu vou-me vingar do tempo sim, vou viver o meu ao máximo, por mim e por ti. Só isso. O meu hoje é por ti, que estás aí há seis anos a cuidar de mim. O meu hoje é por ti, é assim há seis anos e vai continuar a sê-lo até ao fim.
E agora já te podes sentar no sofá e adormecer à frente da televisão, para eu chegar lá e mudar o canal e tu reclamares comigo porque "estavas a ver aquele programa super interessante do qual nem sequer sabes o nome". Vá, vai lá. Eu prometo que não chego tarde.

A tola da tua neta mais velha,
amo-te sempre.