Ela tenta ser forte o tempo todo, ela tenta que eu não note que lhe custa, ela tenta que todos acreditem que está tudo bem. Ela não é de ferro e eu sei que está tudo menos bem. Tem carregado o peso do mundo, cinco ou seis mundos na verdade, nos ombros e nunca reclamou. A vida tem sido madrasta com ela, mas ela continua a lutar, porque acredita que o amanhã pode ser melhor e que os dias ainda lhe vão sorrir, tanto ou mais como ela lhes sorri a eles. Ela é forte e é o meu forte, tem uma força capaz de mover montanhas só para que nunca nos falte nada. Nunca dá parte fraca, porém eu sei que também há noites em que chora antes de ir dormir.
Eu sei que os dias não têm sido fáceis e que eu também não tenho dado um bom contributo para que o sejam. No entanto, gostava de poder aliviar-lhe parte do peso que carrega. É por isso que não lhe conto dos meus problemas. Nem quero que sonhe que os tenho, já lhe basta tudo aquilo com que lida todos os dias. Já lhe basta ter de curar as dores dos outros, guardando todas as dela no bolso, como se fossem menos importantes. E não são. É por isso que fico eu à espera da chamada do hospital, é por isso que faço eu o papel dela, é por isso que falo eu com os médicos e que espero ser eu a levar com o primeiro embate. Porque ela merece um descanso, merece que um momento de paz, merece que alguém faça por ela o que sempre fez por todos.
Chegou a altura de ser adulta e de lidar com as adversidades da vida como ela sempre me ensinou a fazer. Chegou a hora em que tenho de deixar de olhar para ela como o modelo para o qual olho e seguir, efetivamente, o exemplo que me dá todos os dias. Chegou o momento de entender que nem sempre posso regressar ao colo dela, porque há dias em que é ela que precisa de colo e, nesses dias, tenho de ser eu a dar-lho. Ela não pode ser forte o tempo todo e nas vezes em que ela não conseguir, eu vou ser forte por ela.