segunda-feira, 30 de abril de 2018

Fortaleza

    Ela tenta ser forte o tempo todo, ela tenta que eu não note que lhe custa, ela tenta que todos acreditem que está tudo bem. Ela não é de ferro e eu sei que está tudo menos bem. Tem carregado o peso do mundo, cinco ou seis mundos na verdade, nos ombros e nunca reclamou. A vida tem sido madrasta com ela, mas ela continua a lutar, porque acredita que o amanhã pode ser melhor e que os dias ainda lhe vão sorrir, tanto ou mais como ela lhes sorri a eles. Ela é forte e é o meu forte, tem uma força capaz de mover montanhas só para que nunca nos falte nada. Nunca dá parte fraca, porém eu sei que também há noites em que chora antes de ir dormir.
    Eu sei que os dias não têm sido fáceis e que eu também não tenho dado um bom contributo para que o sejam. No entanto, gostava de poder aliviar-lhe parte do peso que carrega. É por isso que não lhe conto dos meus problemas. Nem quero que sonhe que os tenho, já lhe basta tudo aquilo com que lida todos os dias. Já lhe basta ter de curar as dores dos outros, guardando todas as dela no bolso, como se fossem menos importantes. E não são. É por isso que fico eu à espera da chamada do hospital, é por isso que faço eu o papel dela, é por isso que falo eu com os médicos e que espero ser eu a levar com o primeiro embate. Porque ela merece um descanso, merece que um momento de paz, merece que alguém faça por ela o que sempre fez por todos.
   Chegou a altura de ser adulta e de lidar com as adversidades da vida como ela sempre me ensinou a fazer. Chegou a hora em que tenho de deixar de olhar para ela como o modelo para o qual olho e seguir, efetivamente, o exemplo que me dá todos os dias. Chegou o momento de entender que nem sempre posso regressar ao colo dela, porque há dias em que é ela que precisa de colo e, nesses dias, tenho de ser eu a dar-lho. Ela não pode ser forte o tempo todo e nas vezes em que ela não conseguir, eu vou ser forte por ela.

domingo, 22 de abril de 2018

É amor que chama?


    Ao longo da vida conheci vários tipos de amor e todos eles me completaram um pouquinho mais. O primeiro amor que conheci, foi o amor dos meus pais. Não há amor mais seguro que esse. Eles são o meu porto seguro, o colo para o qual posso voltar a sempre que tudo correr mal, os braços que me farão sentir protegida de tudo, mesmo com um mundo a desabar sobre nós. A este amor assemelha-se o amor de irmã, que conheci há catorze anos, quando nasceu aquele serzinho maravilhoso que dorme no quarto ao lado do meu. Arriscaria a dizer que é o amor mais cúmplice de todos, aquele que me vai acompanhar até ao fim dos meus dias em aventuras e peripécias, com quem vou partilhar bons e maus momentos, com quem vou trocar risos e gritos para sempre (um dia, eventualmente, mais dos primeiros do que dos segundos).
    O amor dos amigos também foi sempre um amor muito relevante ao longo destes curtos vinte e dois anos de vida. Sempre foi, sempre será. É o amor que mais felicidade nos traz. O amor que tenho pelos meus amigos faz-me sentir completa e realizada, o amor que eles me dão preenche-me e dá-me asas para voar, para arriscar, para sair da minha zona de conforto, sabendo que por mais voltas que a vida dê, haverá sempre uma mão estendida para me ajudar a levantar, um ombro onde chorar, um colo onde descansar e um ouvido para desabafar. Este é o tipo de amor que me faz acreditar no para sempre, que me faz pensar que afinal há mesmo pessoas que vêm para ficar e que nunca ficarei sozinha, porque mesmo velhinha terei alguém com quem rir à gargalhada, a pensar em todas as maluqueiras que já vivemos juntos.
    O amor do nosso animal de estimação também é uma forma de amor. É o amor mais fiel que teremos na vida, porque não importa se tratamos bem ou mal o nosso bichinho, se lhe damos a sua comida preferida ou se nos esquecemos de lhe deixar água, se passamos o dia com ele no sofá ou se estamos fora de casa todo o dia, ele vai amar-nos sempre, com a mesma intensidade, todos os dias. E sem nunca pedir nada em troca.
    Durante a adolescência conheci aquele tipo de amor que toda a gente fala. Nem sempre foi correspondido e, umas vezes, deu-me borboletas na barriga e, outras, dores no coração. É o tipo de amor que nos faz sentir nas nuvens quando tudo corre bem, o tipo de amor que nos faz deitar todos os sonhos por terra quando tudo corre mal. Aprender a relativizar as coisas é um processo que leva tempo e, aos vinte e dois anos, ainda não sei fazer isso com muito sucesso, mas tento. Tento que as expectativas não sejam muito altas, tento que a cabeça ande na lua, mas que os pés estejam sempre bem assentes na terra e tento, acima de tudo, que o amor que tenho pela outra pessoa não me tire o amor que tenho por mim.
    E isso lembra-me do melhor amor que já experienciei: o amor próprio! Ninguém nos pode amar mais do que nós mesmos. Gostarmos daquilo que somos, de como nos sentimos, do reflexo que vemos no espelho é essencial para podermos amar todos aqueles que temos à nossa volta, para podermos experienciar, de forma equilibrada todas as formas de amor que antes falei. Não é nada fácil, devo admitir. É um processo continuo, que muitas vezes leva demasiado tempo até dar resultado e que é consequência de uma constante tentativa e erro, mas é imensamente gratificante quando é conseguido. A nossa essência fica renovada por completo, a nossa vontade de viver e de comer o mundo é gigante e acordamos felizes, todos os dias, só pelo facto de estarmos aqui e podermos continuar a viver os nossos dias. E devemos vivê-los como queremos, porque a vida já provou inúmeras vezes que o tempo que nos dá é curto demais para não fazermos aquilo que desejamos.