quinta-feira, 9 de abril de 2015

Uma crónica digna de se ler.

Como escrever uma carta de amor


«Coragem! Atire-se sem medo.
Antes de começar, tem licença para se sentir uma heroína: nos gélidos tempos que correm, alguém ser capaz de expor os seus sentimentos em papel merece uma estátua épica na praça. Depois pense no que vai dizer: lembre-se que uma carta de amor é a mais lida de todas as cartas, guardada até à morte e tratada como uma relíquia. Mas não pense tanto que se arrependa de a mandar. Ao contrário de tempos antigos, não tem de haver um oceano entre vocês para escrever uma carta. Ele até pode dormir ao seu lado há dez anos. O importante é declarar - ou redeclarar - o seu amor.
Em papel, please! Uma carta de amor é para se guardar.
Pois é: uma carta de amor ainda é... uma carta. Esqueça os mails, os sms, os pombos correios e os sinais de fumo. Uma carta tem de ser feita para ser lida, relida, guardada na carteira, chorada em cima, desdobrada e guardada junto ao coração. Como é que vai guardar um sms junto ao coração?
O melhor também é escrever à mão, a não ser que tenha uma caligrafia mais indecifrável que a Pedra Rosetta e corra o risco de ele parar em cada palavra a meditar "ora bem, 'meu querido João' eu chego lá, 'desde que te vi, tens sido a luz...? pus? cruz? da minha quê? vida? lida? sida não deve ser com certeza..." Ah, e não se esqueça da data e do local. Repetimos: esta é uma carta que vai ser guardada (esperamos nós, não é...). Pela mesma razão, use o nome próprio da pessoa. Se começar com 'meu querido amorzinho fofinho e giro', como é que daqui as uns tempos os seus netos vão acreditar que é o avô?
Não assuste. Pense bem antes de enviar a carta.
Antes de começar, pense no que é que vai dizer e a quem. Se a pessoa a quem vai mandar já sabe que o ama desde que Afonso Henriques conquistou Lisboa, está à vontade. Se vai ser mesmo uma surpresa (ah grande mulher!), precisa de se certificar primeiro de que a pessoa está, enfim, recetiva aos seus sentimentos, para não se arriscar a uma tampa inútil. Se não tem a certeza, se calhar é melhor investigar o terreno antes de começar com 'Pedro Manuel, serve esta carta para te comunicar que pretendo casar-me contigo quer tu queiras quer não, vestida de princesa no Alto do Bom Jesus de Braga e ter pelo menos sete filhos todos com o teu nariz e o meu queixo'.
Cuidado com a lemechice. Xarope, só para a tosse: seja original!
Fernando Pessoa dizia que todas as cartas de amor são ridículas. Por isso é que nunca conseguiu casar-se com a Ofélia. Esqueça o Fernando Pessoa: sabia muito de poesia mas nunca escreveu uma carta de amor que se apresentasse. Ao contrário do que ele diz, é possível escrever uma carta de amor original. Esqueça as xaropadas. Esqueça as frases feitas. E, atenção, acima de tudo, NÃO ESCREVA POEMAS! Ninguém disse que não se pode ser sincera e ao mesmo tempo original. Afinal, o vosso amor é único. Não escreva uma carta cheia de lugares-comuns. Afinal, abrir o coração não implica fechar o cérebro. Não é preciso ser o Saramago. Só é preciso pensar um bocadinho.
Estilo: fuja da formalidade. Ternura, sinceridade e sentido de humor.
Cuidado com o tom: mesmo que esteja farta de lhe manda indiretas e ele não dê por nada, é melhor não começar com : 'Zé Tó, sempre estive certa de que eras o homem da minha vida, sabe Deus porquê, porque não tens nada que se te recomende, e francamente acho muito estranho que ainda não tenhas dado por nada, mesmo sendo o maior totó à face da Terra'. Cuidado com as metáforas: lembre-se do que aconteceu ao príncipe Carlos de Inglaterra quando disse que queria ser o tampão da Camila (e a verdade é que com metade do mundo e rir e a outra metade a vomitar, funcionou). Na dúvida, o estilo mais simples é o melhor. Não seja formal: seja terna e sincera. Imagine que é você que está a receber aquela carta. Como é que se sentiria? Teria vontade de a guardar? Um bom esquema básico é o seguinte: primeiro explique porque é que está a escrever aquela carta. Atenção: nunca se diminua a si própria com frases como 'provavelmente não sentes o mesmo que eu' ou 'sei que ainda estás embeiçado pela idiota da Mafalda que não te conhece e nem sequer gosta dos Muse'. Não assuma nada da parte dele. Pode dizer variadas coisas: como a sua vida mudou desde que o conheceu, como tem saudades dele quando não o vê, o que é que o torna único e o que sente quando está com ele, ou pode não dizer nada disto. Seja específica: dizer 'adorei quando me levaste a ver o pôr do sol na praia' e muito melhor do que 'és o homem mais romântico que conheço'.
Atenção ao fim e ao principio: é aquilo que mais se recorda. E antes de a enviar releia tudo atentamente: atenção aos erros! Não há nada com maior potencial para destruir um ambiente romântico do que um erro!
E resultados? Aceite o que vier e seja feliz.
E se levar uma tampa? Se ele lhe ligar a dizer que de facto quem ele ama é a idiota da Mafalda. Não importa: acontece aos melhores.»




Por: Catarina Fonseca

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