Avô,
Gostava que soubesses que a vida não voltou a ser a mesma depois de ti. Que, nove anos depois, ainda não aprendi a lidar com a tua ausência, ainda não sei o que fazer a esta saudade que me aperta o peito. Sinto a tua falta todos os dias, mesmo que raramente o diga. E eu sei que a mãe também, mas não dá parte fraca. Já ninguém me faz pargo no forno, ninguém me liga todos os dias a perguntar como estou e se já vi nas notícias o último perigo mortal escondido em não sei quê que uso todos os dias. Já não me ligas, já não cozinhas para mim, já não me fazes cafuné, já não te zangas comigo, já não vamos passear os dois. Já não estás. E há nove anos que assim é.
Gostava, também, que soubesses que já estou no segundo ano da licenciatura, que vou a festas, mas não falto às aulas no dia a seguir (quase nunca falto, vá), que as minhas notas são boas e que gosto mesmo daquilo que estou a fazer. Até já tenho uma ideia daquilo que quero fazer no mestrado. Sempre fui muito organizada com a escola, tu sabes que sim. Consegui comprar o traje, avô, e já tenho emblemas na capa. Não me esqueci de ti, tens um espacinho só teu e no qual eu tenho o maior orgulho! Obrigada por tudo o que fizeste por mim, enquanto pudeste. Fiz amigos, não te preocupes, estou bem entregue e eles dão-me casa quando há festas. Não ando sozinha na rua à noite, fica descansado, e também não conduzo a altas horas da madrugada.
Gostava que soubesses tanta coisa, que vinte e quatro horas não chegariam para te contar tudo aquilo que por aqui se tem passado, às voltas que a vida nos tem dado. Mas estou feliz, sou feliz aqui e, finalmente, sinto que pertenço a um lugar. Até já fiz o curso avançado dos Escoteiros! Sentes-te velho ao ver como cresci? Tenho vinte e dois, mas todos os anos, o catorze de outubro me faz sentir que tenho treze outra vez, sinto-me pequenina e consumida por saudades. E ao fim deste tempo todo, consigo perceber que nada disto vai passar e que vou continuar, sempre, a ser a menina que era no dia em que nos deixaste, que vou sentir umas saudades loucas de ti e que as lágrimas vão continuar a rolar, duas a duas, sem que a minha vontade as faça parar. Que por muito que eu queira, que peça, que suplique, o dia catorze de outubro não vai desaparecer do calendário e vai ser sempre o dia mais triste e feio do ano. Prometo que nunca te esqueço e que, se houver algo depois disto, nos vamos encontrar um dia.
A tua nêspera,
Joana
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