Enquanto as outras meninas da minha idade queriam ser princesas, eu, aos 5 anos, já queria ir para a Universidade. Nem fazia bem ideia do que isso era, mas sabia que era um sítio onde se estudava e, achava eu, onde as "meninas grandes" andavam com o dossier na mão (todo um gesto de gente crescida, acreditava eu naquela altura). À medida que fui crescendo quis ser médica, professora, enfermeira, veterinária, hospedeira de bordo, bióloga marinha e todas aquelas coisas que as meninas sonham ser, mas acima de tudo queria ir para a escola dos "grandes". Mais tarde, e para minha grande alegria, percebi que para ser qualquer uma dessas coisas, teria de passar primeiro pela Universidade. A ideia de sair de casa dos pais, morar com amigos e ser crescida era aliciante. Vivia com o rei na barriga e o peito cheio de certezas: eu ia para a Universidade em Lisboa. Ia mesmo! A qualquer custo, eu ia, eu tinha a certeza que ia! Ia trabalhar e estudar como a mãe, se fosse preciso. Mas ir para Lisboa era algo que não se punha em causa por motivo algum. Agora já não é bem assim. É claro que continuo a querer ir para Lisboa estudar, mas fui percebendo que as coisas não assim tão cor de rosa como sempre imaginei.
Há cerca de três anos decidi que é Direito o curso que quero tirar. Quero ajudar vítimas de violência doméstica, violação ou qualquer outro tipo de abuso; quero fazer a diferença na vida dessas pessoas, saber que contribui para o seu bem-estar. Nada me fará sentir mais realizada do que isso. Faltam apenas alguns meses para a chegada da tão esperada ida para a Universidade e há um detalhe que coloca em risco essa ida: o dinheiro (é sempre o dinheiro!). Pagar livros, propinas, renda da casa, água, luz e gás, alimentação, transportes, e qualquer outro imprevisto, não é fácil e sabe-se que o dinheiro não nasce nas árvores. Já para não mencionar que em Lisboa tudo é caro! Foi a pensar em tudo isso que decidi trabalhar enquanto faço o 12º ano. Sá que sentir na pele o cansaço de estudar e trabalhar ao mesmo tempo fez-me entender que às vezes se sacrificam certas coisas em prol de outras. Agora todo o tempo livre é dedicado ao estudo, quero concorrer à Universidade com a melhor média possível e ter a certeza que fico na Universidade que sempre quis. Vivo uma rotina resumida a: 5h diárias de aulas, 4h de estudo em casa e 5h no trabalho. Restam-me 10h para dormir, comer, estar com a família, o namorado e os amigos e, no fim de contas, é exactamente este grupo de pessoas que se vê sacrificado. "Não posso, tenho de estudar" é, provavelmente, a frase que todos e cada um deles mais me ouve dizer. Eu nunca posso, tenho sempre de estudar.
A derradeira questão que se coloca é a seguinte: até que ponto é que dito sacrifício vale a pena? Na minha opinião, não vale a pena anular-me desta maneira, nem sequer estou disposta a continuar a fazê-lo. Privar-me de estar com as pessoas que mais amo não me me vai fazer bem. Posso ter grandes notas e dinheiro para pagar as contas todas, mas, se ao chegar a casa à noite, não lá estiver ninguém com quem partilhar as pequenas coisas do dia a dia, não vou ser feliz. Se eu não tiver ninguém com quem visitar a cidade, alguém com quem ver um filme num dia de chuva, alguém que esteja à minha espera cá em baixo ao fim de semana, alguém que sinta a minha falta quando estou longe, alguém que celebre as minhas vitórias comigo, alguém que me seque as lágrimas de saudade, alguém que me acompanhe nesse novo percurso, nenhum sacrifício que eu faça agora irá valer a pena, porque existem sacrifícios que o dinheiro não paga. Há uma lista enorme de coisas que dinheiro nenhum no Mundo irá conseguir comprar algum dia e essas pessoas, as minhas pessoas, estão no topo dessa lista.
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